Barra da Ilha

onde tudo pode acontecer

11

de
outubro

* UM DIA, EU CHEGO LÁ! SERÁ? *

Quem somos nós? Para que estamos aqui? O que é a vida? O que é a morte? O que é amor? O que é relacionamento? O que é encontro? O que é desencontro? Qual é a verdade? O que é essencial? O que realmente importa? A série de interrogações que explode na cabeça da gente com freqüência, cedo ou tarde, começou a intrigar a alma de Cláudia Baptista de Souza quando ela tinha uns 27 anos. Nessa idade, já tinha se casado (aos 14), se separado (aos 17), parido (a Fábia, aos 16), trabalhado como repórter (no final dos anos 60) e ido morar nos Estados Unidos (em Los Angeles, onde iluminava shows de rock). Engajada como qualquer jovem de sua idade nos anos 70, foi durante a leitura de um livro que essas questões começaram a agulhar seu cérebro.

Não foi o Osho Rajneesh nem o Deepak Chopra, tampouco Sai Baba ou qualquer outro membro de alguma comunidade zabelê daquela época. Foi Trotsky. Isso mesmo, o ucraniano marxista que comandou o Exército Vermelho e foi um dos fundadores do Partido Comunista da antiga União Soviética. “Eu era jornalista e vivia me deparando com injustiças sociais. Queria saber o que podia fazer para mudar o mundo”, lembra a monja. “Até que caiu na minha mão um livro de Trotsky que contava a história de um grupo revolucionário que matou todo mundo e tomou o poder. Depois de um tempo, esse grupo começou a se comportar da mesma maneira das pessoas que assassinaram. A idéia do autor era que a revolução tinha, então, que ser geral, internacional. Se todos os países não mudassem, um sozinho não mudaria”. A idéia marxista, no entanto, bateu diferente na mente de Cláudia, paulistana de classe média, filha de um empresário e uma pedagoga, então com 28 anos. Ela entendeu que, se o ser humano não se transformasse na essência, pouco importaria o partido político.

Nessa época, Cláudia vivia nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles. Casada com um iluminador de shows de rock, trabalhava no Banco do Brasil e ajudava o marido nas horas vagas. Iluminava Alice Cooper, Rolling Stones, os Beatles. Além de Trotski, outra coisa a intrigava: os monges vietnamitas que punham fogo no próprio corpo em praça pública em protesto aos ataques americanos. “Eu, que era brava e batia portas, pensava: ‘Como é que esses caras conseguem ficar quietinhos ali, se queimando?’. Que controle tenho eu de mim mesma?”. Na época, nenhum. Cláudia era uma menina brava, revoltada, que não suportava ser contrariada. Algo saía dos planos, ela rapidinho perdia o eixo. Incomodada com a falta de controle, fazia balé e ouvia rock´n´roll para aliviar a alma. Mas não era suficiente.

Numa certa noitada, ouvindo o yeah, yeah, yeah dos Beatles, que ela amava e cultuava, de novo vieram os questionamentos. “O que é que esses caras têm de tão genial? Como conseguem se fazer entender tão perfeitamente cantando?” Investigando a vida dos quatro garotos de Liverpool, Cláudia descobriu que eles meditavam. Lá foi a moça procurar saber, então, o que era meditação. Experimentou a meditação transcendental, a mesma dos Beatles.

A Busca
A inquieta Cláudia continuou experimentando. Ácidos, maconha, cocaína, bebida. Provou tudo e viu que não era nada disso. Terapias, de Freud a Reich. Balé, ioga e meditação. Tudo isso, apesar de fazer agrado, não preenchia a alma sedenta da moça. Mudou-se para Londres, pois lá encontraria algo. Engano. A Índia, então? No Oriente haveria de achar o que buscava. Mas seu pai, um executivo tradicional, não quis que a filha fosse “ver a pobreza”. Ela obedeceu e voltou aos Estados Unidos.
Nos primeiros anos de estudos, Cláudia sabia que queria se tornar monja. De quando em quando, dizia isso ao seu professor. Ele ignorava, falava que não era o momento. Foram necessárias horas, dias, dois anos de muita meditação para que Cláudia entendesse que o que ela procurava estava dentro dela mesma. Independia do lugar, do grupo, de tornar-se ou não monja. Numa meditação, lhe veio a imagem de Buda e Jesus Cristo juntos. Percebeu, então, que todos os caminhos levavam ao mesmo lugar. Ficou em paz consigo mesma.
Uma vez ordenada, devidamente batizada Monja Coen (Co quer dizer só e En, Círculo), a solitária Cláudia foi viver no mosteiro feminino Aichi Senmon Nisodo, em Nagóia, Japão. Viveu enclausurada, fazendo extenuantes práticas de estudos e meditação zen budista, durante oito anos. Em seguida, casou-se com o monge Shozam Murayama, dezoito anos mais jovem, e foi para Hokaido, onde ficou até 1995. De volta ao Brasil, foi nomeada presidente da Federação das Seitas Budistas, que reúne as seis principais escolas japonesas presentes aqui. Durante seis anos, dirigiu o Templo Busshinji, na Liberdade, em São Paulo. Em 2001, virou sem-templo. Foi afastada por ser mulher e não ser japonesa. Seguiu sua intuição, se retirou sem grandes conflitos e inaugurou seu próprio templo, o Tenzui, da Comunidade Zen Budista do Brasil. De lá pra cá, se tornou a monja mais famosa do país.

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1 Comentário »

  1. Comentário por Haroldo Martins — 11 de outubro de 2006 (9:27)

    Bom! Algumas coisas são comuns. Acredito que chega. Um cheiro!

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