JORNAL DE FATO - domingo, 03 de setembro de 2006
Prosa & Verso - Crispiniano Neto
Chico Paraíba na cultura:
Macau não merece…
Estive em Macau durante a passagem da caravana em que a governadora Wilma de Faria e o senador Fernando Bezerra fizeram um arrastão de virada no Vale do Açu, passando em Porto do Mangue, Carnaubais, Alto do Rodrigues e Macau. Antes de a caravana chegar, fui com Ruy pereira a uma lanchonete chamada "Lugá Legal", que é de um bom gosto impressionante, tanto na decoração quanto nas iguarias que serve e no atendimento competente e gentil. Eu, Ruy Pereira e meu irmão Ireno Lima ficamos impressionados com o embelezamento que a cidade agregou nos últimos tempos deixando de ter aquela imagem de cidade feia e suja para uma face agradável, leve e fagueira, com gosto de galope à beira-mar. Impressionaram-nos naquela praça, crianças depois das 22 horas brincando e passeando de bicicleta sob os cuidados dos pais, numa imagem gostosa que contrasta com a visão apocalíptica de uma São Paulo sob o comando do PCC ou mesmo de uma Macau que no governo passado teve três bancos assaltados no mesmo dia. Quando a caravana chegou, fomos para o carro e tivemos que atravessar a praça, passando à margem do conjunto de mesas de uma pizzaria também muito interessante, onde bastante gente pacata, ordeira e divertida curtia a noite fresca com cheiro de mar e prazer. Na travessia da praça, encontramos Luizinho Cavalcanti, ex-prefeito de Carnaubais, hoje responsável pelo Programa do Leite, em todo o Rio Grande do Norte. Depois de um discurso histórico em Carnaubais, relaxava acompanhado de esposa, filho, filha e amigos. Acabara de pedir uma pizza quando um vizinho de mesa começou a agredir a governadora com palavras de baixo calão. Disparava pela boca suja a podridão da própria alma e olhava para Luizinho e ria seu sorriso de hiena e chacal. Sentindo-se desconfortável, Luizinho educadamente chamou a garçonete e pediu a conta para se retirar da proximidade de companhia tão desagradável. Nesse momento estávamos passando. Senti que o clima estava pesado e fui ficando em solidariedade a Luizinho, que conheço há quase trinta anos. Desde os tempos de Pastoral da Juventude e de fundação do PT e, principalmente, dos tempos duros e secos em que sofremos demais tentando organizar os colonos da Serra do Mel numa cooperativa da qual recuperamos a fábrica de sucos trazendo a Maguary para gerar 150 empregos e comprar o caju que se perdia. Eu era gerente e ele, secretário da Coopermel, naqueles tempos do plano Cruzado. Ruy Pereira, de longe me pedia pressa. Respondi que só sairia dali depois que Luizinho saísse com sua família. O ignorantão. De nome "artístico" Chico Paraíba, passou a me agredir perguntando se eu era "babão" de Luizinho. Respondi-lhe que não precisava me identificar a alguém tão insignificante quanto ele, mas que ele podia ter certeza de que eu não sou um imbecil chapado da marca dele. O idiota meteu-se a valente. Gritava histericamente, mas com o cuidado de se deixar agarrar pelos seus educados colegas de mesa. Tentou levantar-se e tive que dizer-lhe que se tivesse o atrevimento de se aproximar um metro de mim levaria uma surra que jamais esqueceria. O covardão fazia que vinha, mas não vinha. E passei a qualificá-lo dentro dos limites da verdade: moleque, cafajeste, beberrão cretino e boca podre. Currículo que uma banda da cidade me confirmou nas duas horas em que ainda fiquei na querida Macau. Estupefato fiquei quando soube que o pústula é secretário de Cultura de Macau.
Ainda Chico Paraíba
Depois de trinta anos de vida dedicados à cultura como escritor, professor, poeta, jornalista, dramaturgo, membro da Comissão Estadual da Lei Câmara Cascudo por cinco anos, membro do Conselho Diretor da Fundação José Augusto por quatro anos, membro do Conselho Municipal de Cultura de Mossoró por oito anos e da Academia Mossoroense de Letras, além de estar praticamente eleito membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com posse sendo agendada para fevereiro próximo, isso depois de estar vindo de duas palestras que ministrei no Congresso Brasileiro de Folclore, fiquei sem entender o que é que se considera cultura na gostosa cidade de Macau.
Ainda Chico Paraíba II
E fui passando pela memória um filme. Lembrei que há poucos anos como conselheiro da Lei Câmara Cascudo, analisei e aprovei o projeto de um teatro excelente para Macau, tive o meu parecer aprovado por unanimidade e a obra de 430 mil reais foi patrocinada pela Lei Câmara Cascudo. Lembrei que também foi um parecer meu que aprovou o fantástico Rancho Cultural de Subhadro e que também foi financiado pela Petrobras, no valor de 700 mil reais. Que ministrei um curso de teatro há poucos meses dentro da programação do Festuern do qual fui coordenador artístico e conheci gente fantástica da vida educacional e artística de Macau, inclusive Tião Maia, ator, autor, diretor de teatro e músico. Lembrei que em 1991 fiz uma pós-graduação em Leitura e Produção de Textos e tinha como colegas pelo menos três ou quatro professores de Macau, gente excelente, que convivi com um militante e poeta como o histórico Floriano Cavalcanti.
Ainda Chico Paraíba III
Se tudo aquilo ainda era pouco, me veio à lembrança que aquela era a terra onde José Mauro Vasconcelos morou, trabalhou e escreveu seu melhor romance, Barro Blanco, contando a vida e a luta dos homens do sal e do mar. Lembrei que ali trabalhou Francisco Menescal, pai de Roberto Menescal que, ainda criança, bebeu inspiração nas ondas do mar macauense para depois tornar-se um dos mais importantes músicos da Bossa Nova, tendo sido líder da Banda de Elis Regina por dez anos, que ali nascera Hianto de Almeida, um dos príncipes da Bossa Nova, amigo de Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto. Hianto, aquele fez Mulher do ôi azul, em parceria com Chico Anísio e a viu ser gravada por Orlando Silva com arranjos de Tom Jobim. Lembrei que aquela é a terra que viu nascer Nazareno de Brito, que foi parceiro de Pena Branca e irmão de Gilson, autor de Casinha Branca.
Ainda Chico Paraíba IV
Lembrei que Macau é o berço de Antônio José Madureira, um dos próceres do Movimento Armorial, tendo a mesma importância na música que Ariano Suassuna tem na Literatura. Antonio é irmão de Antúlio Madureira, um dos maiores músicos do Brasil, os dois são netos de Tonheca Dantas e contraparentes de Mirabeau Dantas, ex-presidente do sindicato dos músicos do Rio de Janeiro, que nasceu em Areia Branca, sentindo o cheiro da maresia de Macau. Lembrei que Macau deu à luz, nada menos que Waldemar de Almeida, nome do instituto de música da Fundação José Augusto, um erudito de elevadíssimo nível e pai de Cursy de Almeida, "tampa de crush" nas rodas de música clássica. Lembrei também que Macau é a terra Haroldo de Almeida, irmão de Hianto e que nos anos 50 abalou o Rio de janeiro cantando na noite, disputando, em pé de igualdade com Orlando Silva e outras feras da música brasileira. Sim. Lembrei também de Manuel Rodrigues de Melo e Américo Oliveira Costa, cuja cadeira tenho a honra de assumir na Academia de Letras.
Ainda Chico Paraíba V
Lembrei que naquela cidade em 1988 foi fundado um movimento cultural e literário denominado ICEC - Imperial Casa Editora da Casqueira, sob a liderança do sociólogo, poeta e escritor Benito Maia Barros e que já lançou mais de 15 livros, entre prosa, contos, poesias e história, se constituindo num dos maiores movimentos literários do Rio Grande do Norte. Nas paredes da memória me vieram nomes de poetas e escritores macauenses, como: Vicente Serejo, uma pena de ouro cravada de brilhantes, como me dizzia Canindé Queiroz, Gilberto Avelino (nas cido em Assu, mas radicado em Macau, João Vicente Barbalho, Alfredo Neves mineiro de Teófilo Otoni que exerceu sua intelectualidade ao cheio das salinas, Getúlio Moura, Benito Maia Barros, João de Aquino, Sebastião Maia, meu amigo Tião Maia e Horácio Paiva, dentre outros.