
ENCANTAMENTO
Há quanto tempo estamos assim tão perto?
A ampulheta perdeu-se no salino deserto e começo a achar
que te encontrei há milênios.
Sinto que minha alma procurava a tua pelos séculos sem fim.
Um dia fui Águia.
Lembro que me jogava dos penhascos em busca dos teus negros olhos.
Quando a noite sem ti chegava, recolhia minhas asas e soluçava baixinho.
Certa vez, em minha insana busca, encontrei outro pássaro.
Flutuamos juntos e fiz com ele um ninho.
Meu coração, porém, inquieto, já era teu.
Onde estavas?
Cansada por te esperar, desisti de voar, virei peixe.
Percorri sete oceanos em busca da tua boca.
Nas manhãs ensolaradas, mergulhava em águas profundas para encontrar teu sorriso.
Lutei com dragões, serpentes, monstros marinhos. Segui golfinhos e me encantei com sereias.
À tardinha, quando o sol mergulhava no mar sem que eu te achasse, enlouquecida de dor eu murmurava.
Onde andavas? Onde estavas?
Séculos depois, quando enfim o príncipe das marés quebrou o encanto, fui transformada em Centauro. Nas noites de cio, meu lado selvagem, ensandecido, cavalgava em busca do teu cheiro.
Quando o sol nascia, virava gente e, envergonhada, me escondia do mundo no alto de uma colina.
Certo dia, quando nem mais esperava, te vi passar, devagar, na janela da noite.
Senti Frio.
Arrepio.
Um presságio.
Os teus olhos. A tua boca. O teu cheiro.
Desfez-se todo o mistério e o meu corpo explodiu em desejo.